Lugares · Minas Gerais

Lago de Furnas

O mar que Minas ganhou não existia antes de 1963. É um lago feito pela mão de gente, com cidades dormindo no fundo, cânions de pedra nas bordas e a Serra da Canastra lá longe, onde nasce um rio famoso. Aqui está o Furnas de verdade.

O lugar

O Lago de Furnas nasceu da usina hidrelétrica de Furnas, no Rio Grande, em Minas Gerais. A usina começou a operar em 1963, e a água foi tomando o vale até virar um lago de cerca de 1.440 quilômetros quadrados. É tão grande que o apelido pegou: o Mar de Minas. Fica no Sul de Minas e banha mais de trinta municípios.

Para fazer o lago, algumas cidades tiveram que ir para mais longe. Em Guapé, as comportas foram fechadas em 9 de janeiro de 1963, e em dez dias a água já cobria a parte baixa da cidade. A cidade nova foi reconstruída em 1964, num lugar mais alto, em forma de península cercada pela água. Na seca, as ruínas da igreja matriz às vezes reaparecem. E lá embaixo, mergulhadores que exploram a região de São José da Barra já encontraram uma rua inteira, casas quase intactas, uma ponte e até um ônibus, a cerca de oitenta metros de fundo.

Em volta do lago é Minas de verdade: cerrado, pasto, café e eucalipto. Em Capitólio, a água entrou entre paredões de quartzito, uma rocha dura, e hoje os cânions são o cartão-postal do lago, com cachoeiras caindo nas paredes. E ao fundo, no horizonte do jogo, fica a Serra da Canastra, onde estão as nascentes de rios importantes.

Mata, rochas e praia na beira do Lago de Furnas
Mata, rochas e praia no Lago de Furnas. Foto: Mateus S. Figueiredo, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.
Cânion de paredões de pedra em Capitólio
Cânion em Capitólio (MG). Foto: Claudio JJ, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.
Chapada da Serra da Canastra
Parque Nacional da Serra da Canastra. Foto: Jairo Abud, CC BY 2.0, Wikimedia Commons.

O que você vê no jogo

Quase tudo o que aparece desenhado no cenário existe de verdade em volta do Lago de Furnas.

A paisagem

Paliteiro

É o nome das árvores mortas que ficam de pé numa represa depois da inundação. Os galhos expostos viram abrigo novo para bicho e planta, e estudos mostram que esse emaranhado ajuda na reprodução de vários peixes. Também embaraça rede e anzol.

Cânions de Capitólio

Paredões de quartzito, uma rocha metamórfica, que a água esculpiu nas fraturas antigas da pedra. Os paredões têm de vinte a sessenta metros, segundo o Serviço Geológico do Brasil.

Serra da Canastra

O parque nacional foi criado em 1972 e tem quase 198 mil hectares de Cerrado. Protege nascentes do Rio São Francisco, do Araguari e de afluentes da bacia do Rio Grande. A cachoeira Casca d'Anta, de 186 metros, é a mais famosa da serra.

O cerrado e a fazenda

Lobeira, árvore do Cerrado
Lobeira (Solanum lycocarpum), em Santana do Riacho (MG). Foto: Ana Cristina Almeida, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.
Canela-de-ema no campo rupestre
Canela-de-ema (Vellozia squamata). Foto: Tiago Degaspari, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.
Cupinzeiro no pasto
Cupinzeiro na área rural de Itaúna (MG). Foto: Andrepimentasc, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons.

Pequizeiro

Caryocar brasiliense

Dá o pequi, de uso largo na cozinha do Cerrado. Cresce no cerradão, uma mata de árvores de até quinze metros que fica entre o campo aberto e a floresta úmida.

Pau-terra

Qualea grandiflora

Árvore do cerradão, de tronco torto e curto. O nome vem da cor do tronco, marrom avermelhado, igual a terra.

Lobeira

Solanum lycocarpum

Arbusto de beira de estrada e pasto, de até uns cinco metros. O nome científico quer dizer "fruto de lobo": o fruto é o preferido do lobo-guará, que espalha as sementes pelo caminho.

Ipê-amarelo

Handroanthus, mais de uma espécie

Símbolo do Cerrado, conhecido pela florada e pela madeira nobre. Floresce na seca, de julho a setembro, e as flores atraem abelhas e beija-flores.

Canela-de-ema

Vellozia

Planta do campo rupestre, o campo de pedra das serras, que vive em rocha e solo raso. Na Canastra ela forma campos inteiros, e rebrota fácil depois do fogo.

Cupinzeiro

O montinho de terra dos cupins é dos desenhos mais comuns do Cerrado. Em noites quentes e úmidas de primavera, larvas de vaga-lume acendem a luz na superfície do cupinzeiro para atrair insetos, e a coruja-buraqueira gosta de pousar neles.

Eucalipto

Eucalyptus

Não é daqui: vem da Austrália. As primeiras tentativas de plantio no Brasil foram no século 19, e para valer ele ganhou força no começo do século 20, na construção das ferrovias do Sudeste. Hoje Minas é o estado com mais eucalipto plantado.

Café

O Sul de Minas é a maior região produtora de café do Brasil, com cafezais em morros entre setecentos e pouco mais de mil metros de altitude.

Gado nelore

Raça de origem indiana, da região de Ongole, que chegou ao Brasil há mais de cem anos. Aguenta calor, parasita e clima variado, e é conhecida pela rusticidade e pela carne.

Os bichos

Seriema de perto
Seriema (Cariama cristata), em Minas Gerais. Foto: Bruno Luka de Souza Bambirra Silveira, CC BY 4.0, Wikimedia Commons.
Coruja-buraqueira num mourão de cerca
Coruja-buraqueira (Athene cunicularia), no Parque Estadual do Rio Preto (MG). Foto: Under the same moon..., CC BY 2.0, Wikimedia Commons.
Capivaras na beira da lagoa
Capivaras na beira da lagoa de Lagoa Santa (MG). A espécie é a mesma de Furnas. Foto: Valquiria Aldelita Ferreira, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.
Garça-branca-grande na beira da água
Garça-branca-grande (Ardea alba), em Lagoa Santa (MG). Foto: Valquiria Aldelita Ferreira, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.

No pasto e no mato

Seriema

Cariama cristata

O canto dela é o mais conhecido do Cerrado e se ouve a mais de um quilômetro. Come inseto e bicho pequeno, de lagarto a cobra e roedor, e faz o ninho de gravetos numa árvore baixa, de um a cinco metros.

Coruja-buraqueira

Athene cunicularia

Coruja que acorda de dia e também de noite, de campo aberto. Cava a própria toca, mas aproveita as abandonadas por outros bichos, como o tatu, e costuma ser vista em cupinzeiros e postes.

João-de-barro

Furnarius rufus

Constrói o ninho de barro molhado misturado com fibra e capim, e a obra é do casal: os dois levam o barro aos poucos, em camadas, e o ninho tem uma parede por dentro, que separa a entrada do quarto dos ovos. Na falta de galho firme, vale poste e telhado.

Lobo-guará

Chrysocyon brachyurus

O maior canídeo selvagem da América do Sul. Sai ao entardecer e anda por até dez horas atrás de comida, sozinho. Come bicho pequeno e fruta, sobretudo a da lobeira.

No céu

Carcará

Caracara plancus

Ave de rapina de campo aberto, cerrado e beira de estrada. Come carniça e bicho atropelado, mas também inseto, roedor, réptil e ovo. O casal faz ninho de dois ou três ovos e divide o cuidado dos filhotes.

Urubu

Coragyps atratus, o de cabeça preta

Plana com as asas esticadas. Vive de carcaça e ajuda a limpar o campo e a beira de estrada.

Arara-canindé

Ara ararauna

A arara azul e amarela escolhe um parceiro para a vida toda e costuma fazer o ninho em oco de tronco. Vive em buritizais e matas de galeria dos cerrados.

Na água e na beira

Capivara

Hydrochoerus hydrochaeris

O maior roedor do mundo, e vive perto da água.

Lontra

Lontra longicaudis

Vive em rios e lagos de água doce, em quase todo o Brasil, e come principalmente peixe. Num estudo em Minas, havia peixe em quase todas as fezes analisadas. Caça, poluição e destruição da mata da beira são as ameaças.

Garça-branca-grande

Ardea alba

Pesca devagar: anda na água rasa, num passo calmo, e dá o bote rápido e certeiro. Come sobretudo peixe, mas também anfíbio, crustáceo e inseto de água.

Biguá

Nannopterum brasilianus

Mergulha atrás de peixe. As penas dele não têm a cera que as impermeabiliza, então molham e pesam, o que ajuda a afundar. Por isso fica horas de asas abertas num tronco ou pedra, secando ao sol e ao vento.

Martim-pescador

Megaceryle torquata, o grande

Espera num poleiro alto sobre a água limpa, mergulha no peixe que vê e volta para o poleiro, onde bate a presa numa superfície dura antes de engolir.

Tanques-rede de tilápia

Nem todo peixe do lago é solto: parte é criada em gaiolas flutuantes. Em Guapé, a criação de tilápia no Lago de Furnas é feita assim, e o governo demarcou os primeiros parques de criação nas baías dos braços do Rio Grande e do Sapucaí.

Os peixes do mapa

Os doze peixes do Furnas no jogo, do lambari ao rei. Quando o nome popular vale para mais de uma espécie, o cartão avisa. Vários não nasceram no lago: chegaram com gente, e os cartões dizem quem.

Lambari

Astyanax, várias espécies

Lambari é nome de várias espécies pequenas, de dez a vinte centímetros. Vive em cardume, come inseto que cai na água, bichinho e pedaço de planta, e às vezes sobe à superfície para se alimentar. É comida de peixe maior e de ave, e por isso serve de isca viva.

Tilápia

Oreochromis niloticus, a do Nilo

Peixe africano que os egípcios já conheciam por volta de 2000 a.C. A fêmea guarda os ovos na boca. Chegou ao Brasil em 1971 e hoje é muito criada em tanque-rede. Pescadores de Furnas contam que a tilápia-capim foi uma das primeiras a entrar no lago, nos anos 1950, e que a do Nilo foi notada por volta de meados dos anos 1990.

Mandi-amarelo

Pimelodus maculatus

Bagre de uns quarenta centímetros e até três quilos, que come de tudo, principalmente inseto de água. Tem espinho nas nadadeiras, e a ferroada dói e incha. É nativo das bacias do Paraná e do São Francisco e muito apreciado na pesca esportiva e na cozinha.

Piapara

Leporinus obtusidens (Megaleporinus)

Também chamada de piau-verdadeiro ou piavuçu. Come de tudo, de semente e vegetal a invertebrado e peixe pequeno. É migradora e prefere água funda, e vive nas bacias do Paraná, do Prata e do São Francisco.

Traíra

Hoplias malabaricus

Chega a setenta centímetros e quatro quilos. Tem dentes afiados, cortantes, e come peixe pequeno. O nome vem do tupi, tare'ira. Tem o dorso preto, o ventre branco e manchas escuras no corpo, e não tem a nadadeira de gordura.

Corvina-de-água-doce

Plagioscion squamosissimus

Também chamada de pescada-amazônica: é uma pescada de rio, de origem amazônica. Na represa do Jaguari, em São Paulo, ela virou a espécie mais abundante em cerca de dez anos, e a diversidade de peixes nativos caiu, segundo um estudo da Unesp.

Tucunaré-amarelo

Cichla kelberi

Descrito como espécie só em 2006. Os tucunarés introduzidos em reservatórios do Sul, Sudeste e Nordeste eram tomados por outras espécies e são, na verdade, o tucunaré-amarelo e o azul. Em Furnas, mais da metade dos pescadores ouvidos num estudo citou o tucunaré como peixe de fora. Como é caçador de peixe, pode reduzir os peixes do lugar.

Trairão

Hoplias lacerdae

Parente grande da traíra: o nome do gênero vem do grego hoplon, "arma". Come outros peixes, chega a uns setenta e cinco centímetros e quatro quilos, e a espécie leva o nome do médico e cientista João Batista de Lacerda.

Dourado

Salminus brasiliensis

Come peixe e crustáceo. Passa de um metro, e o maior registrado pesou mais de trinta quilos. Migra dentro dos rios das bacias do Paraná, Paraguai e Uruguai. É um dos peixes mais procurados na pesca esportiva, e o pesque e solte funciona bem se o peixe ficar pouco tempo fora da água.

Pirapitinga

Brycon nattereri

Peixe de rio de porte médio, de água clara e mata preservada na beira, que chega a uns cinquenta centímetros e dois quilos e meio. O gênero Brycon come de tudo, de flor, folha, fruto e semente a inseto. Vive nas bacias do Alto Paraná, do São Francisco e do Alto Tocantins.

Jaú-do-Rio-Grande

Zungaro jahu

Bagre gigante de bigodes longos das bacias do Paraná e do Paraguai. Chega a mais de um metro e quarenta de corpo e está na lista de espécies quase ameaçadas da IUCN, a União Internacional para a Conservação da Natureza.

Dourado-Rei lenda do jogo

inspirado no dourado, Salminus brasiliensis

Um dourado-rei é invenção do jogo, mas o dourado de verdade já é um peixe de respeito: passa de um metro, pode passar de trinta quilos e é alvo da pesca esportiva. O nome do gênero, Salminus, vem provavelmente do latim para salmão. O rei é só um dourado que a gente nunca viu.

Dourado nadando
Dourado (Salminus brasiliensis), em Bonito (MS). Foto: David Morimoto, CC BY-SA 2.0, Wikimedia Commons.
Dourado nadando na água clara
Dourado (Salminus brasiliensis), em Mato Grosso. Foto: Donald Davesne, CC BY 4.0, Wikimedia Commons.

O lobo-guará e a Canastra

O lobo-guará é considerado Vulnerável na lista brasileira de espécies ameaçadas. Estima-se que existam cerca de 24 mil no país, a maioria no Cerrado, que vem perdendo espaço para lavoura, pasto, cidade e estrada. A região da Serra da Canastra tem uma das maiores densidades da espécie.

É lá que trabalha o Programa Lobos da Canastra, do Instituto Pró-Carnívoros. O trabalho começou em 2004, como uma pesquisa de campo sobre o lobo-guará no Cerrado, com dez instituições, e cresceu até virar um programa de conservação. Já foram equipados 78 lobos com colar de rastreamento, e a caça ao lobo na região, que chegava a uns seis bichos por ano, ficou rara depois que o projeto conversou com os fazendeiros.

Lobo-guará no Parque Nacional da Serra da Canastra
Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) no Parque Nacional da Serra da Canastra. Foto: Ferrarezi Jr., CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.
Lobo-guará na Serra da Canastra
Lobo-guará na Serra da Canastra. Foto: Nortondefeis, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.

O programa também foi à escola: fez oficinas com cerca de cem professores de São Roque de Minas e Vargem Bonita, levou o Cine-Lobo para as praças e as fazendas e criou um lobo mascote para conversar com as crianças. Proteger o lobo é proteger o campo inteiro: a lobeira, que ele planta pelo caminho, e tudo o que vive junto dela.

Quer conhecer? O programa está em procarnivoros.org.br e o parque nacional, na página do ICMBio.

Pra cuidar

Em Minas Gerais, entre 1º de novembro e 28 de fevereiro vale a piracema, o defeso do peixe de rio: nesse período a pesca de espécie nativa é proibida em represas como Furnas. Vale confirmar as regras do Instituto Estadual de Florestas antes de pescar.

Tilápia e tucunaré não são daqui, e peixe de criação não vai para o lago. O dourado é peixe de soltar, e quanto menos tempo fora da água, mais chance ele tem de seguir vivo.

E na hora de passear nos cânions de Capitólio, respeite os paredões: a pedra tem fratura, a cachoeira desgasta a base dela, e a Polícia Civil atribuiu a queda de um bloco em 2022 a esse processo natural.

Fontes

O lago e a gente

A Canastra e o lobo-guará

O cenário

Os peixes

Fotos

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