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Costa de Santa Catarina

Aqui o mar tem dono e tem calendário. No outono a tainha corre a costa, no inverno a baleia chega para parir, e o litoral guarda o jeito de viver que os açorianos trouxeram há mais de dois séculos.

O lugar

No século XVIII, famílias açorianas se instalaram no litoral de Santa Catarina, na então Vila do Desterro, hoje Florianópolis. Elas já tinham na pesca uma das principais fontes de comida e de renda, e o jeito de morar delas ficou: vilas de casas enfileiradas ao longo das ruas, com a igreja de frente para o mar. A de Santo Antônio de Lisboa, a Nossa Senhora das Necessidades, foi construída entre 1750 e 1756.

Com as mulheres açorianas veio a renda de bilro, feita em almofada, com os bilros trançando os fios. Era renda de família, e vendida por intermédio das compradeiras, que levavam as peças das rendeiras até quem comprava. Hoje a herança açoriana aparece nas festas religiosas, na ratoeira, na renda e na tainha à mesa.

E é a tainha que dá o ritmo. No outono e no inverno ela migra para o norte, em grandes cardumes, atrás de água mais quente para desovar. Os cardumes saem da Lagoa dos Patos depois da passagem das frentes frias, e o frio e o vento sul empurram o peixe para perto da costa. Quando chega, a praia inteira trabalha: é o arrasto de praia, uma pesca artesanal que os açorianos trouxeram e que Santa Catarina reconheceu como patrimônio cultural em 2012.

Pescadores puxando a rede do arrasto de tainha na Praia do Moçambique
O arrasto de tainha na Praia do Moçambique, em Florianópolis. Foto: Otávio Nogueira, CC BY 2.0, Wikimedia Commons.
A canoa do arrasto na areia, com a rede e os pescadores ao fundo
A canoa do arrasto na Praia do Moçambique. Foto: Otávio Nogueira, CC BY 2.0, Wikimedia Commons.
Tainhas na areia depois do arrasto
Tainhas na areia depois do arrasto. Foto: Otávio Nogueira, CC BY 2.0, Wikimedia Commons.
Praia do Campeche, em Florianópolis
A Praia do Campeche, em Florianópolis. Foto: Daniel Vianna, Ministério do Turismo, domínio público, Wikimedia Commons.
Casa azul antiga no Ribeirão da Ilha
Casa antiga no Ribeirão da Ilha, em Florianópolis. Foto: Rafael Abreu Rojas, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.
Igreja Nossa Senhora da Lapa, no Ribeirão da Ilha
A igreja de Nossa Senhora da Lapa, no Ribeirão da Ilha. Foto: Boaventuravinicius, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.
Renda de bilro na almofada, com os bilros pendurados
Renda de bilro: almofada, tiara e bilros. Foto: Ciriice, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.

Os portos

O mar de Santa Catarina também é caminho de navio. Ao norte, na Baía da Babitonga, fica São Francisco do Sul, a cidade mais antiga do estado: o navegador francês Binot Paulmier de Gonneville teria chegado ali em janeiro de 1504, e o povoamento português começou em 1658. O canal de fácil acesso da baía fez o porto crescer, e desde o fim do século XIX ele é a principal atividade da cidade.

Mais ao sul, na foz do rio Itajaí-Açu, fica Itajaí. No século XIX o porto escoava madeira para Santos e para o Rio de Janeiro; no século XX vieram a pesca industrial e a construção naval, e a cidade virou um dos maiores portos pesqueiros do Brasil. Junto com a Portonave, na outra margem do rio, forma hoje um dos maiores complexos de contêineres do país. É desse vaivém que vem o cargueiro que passa no horizonte do jogo.

Navio de carga na Baía da Babitonga, em São Francisco do Sul
Navio de carga na Baía da Babitonga, em São Francisco do Sul. Foto: Stanglavine, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.
O Porto de Itajaí ao amanhecer, com os guindastes e o rio
O Porto de Itajaí ao amanhecer. Foto: Marinha do Brasil, CC BY-SA 2.0, Wikimedia Commons.

O que você vê no jogo

A Costa do jogo junta costão, praia e ilha, com o casario açoriano, a igrejinha e o farol. Algumas dessas peças têm uma história de verdade por trás.

A paisagem

Casario e igrejinha

O desenho das vilas açorianas é o da igreja de frente para o mar, com as casas dispostas pelas ruas em volta. Em Santo Antônio de Lisboa e no Ribeirão da Ilha, em Florianópolis, esses centros históricos existem até hoje.

Costão e praia

É aqui que o arrasto de praia acontece. Os vigias, ou olheiros, ficam nos costões ou na faixa de areia, acompanhando os cardumes. Quando o peixe se aproxima, avisam os pescadores, que esperam prontos para entrar no mar e fechar o cerco.

A baleeira

Antes de virar símbolo de proteção, a baleia-franca foi o motor de uma economia. Santa Catarina teve armações baleeiras desde 1746, e a caça durou até 1973, em Imbituba. A antiga armação de Imbituba, de 1796, hoje abriga o Museu da Baleia.

Biguá

Nannopterum brasilianus

Ave aquática que come principalmente peixe e caça na água, sozinha ou em grupo, conforme a fartura de presas. Tem os pés com membrana entre os dedos. Em estudos no Rio Grande do Sul, peixes de fundo, como bagres e corvinas, foram as presas mais importantes.

Farol na Praia dos Naufragados
O farol da Praia dos Naufragados, em Florianópolis. Foto: Papa Pic, CC0, Wikimedia Commons.
Biguá pousado num tronco
Biguá (Nannopterum brasilianus), em Porto Belo (SC). Foto: Alessandher Piva, CC BY 4.0, Wikimedia Commons.

Os peixes do mapa

Doze peixes do mar de Santa Catarina no jogo, do mais comum ao mais raro. Quando o nome popular vale para mais de uma espécie, o cartão avisa.

Os de todo dia

Sardinha-verdadeira

Sardinella brasiliensis

Peixe pequeno de costa, de até 27 centímetros. Vive em cardumes compactos, entre 5 e 60 metros de profundidade, e é pescada para consumo fresco e em conserva.

Paratí

Mugil curema

Na costa catarinense, é o nome da tainha pequena, parente da tainha de verdade. Come algas, vive em cardumes em praia de areia, lagoa e estuário, e desova entre março e agosto, soltando milhões de ovos no mar. Também é chamada de tainha-branca.

Peixe-espada

Trichiurus lepturus

Corpo comprido e achatado, que afina até uma ponta, sem nadadeira caudal e sem nadadeiras pélvicas. Fresco, é azul metálico com reflexos prateados. Come peixe, lula e crustáceo, e à noite sobe para perto da superfície.

Os de costão e arrebentação

Tainha

Mugil liza

A estrela do litoral catarinense. Chega a 80 centímetros, come algas e matéria orgânica do fundo e anda em cardumes enormes. No outono e no inverno viaja para o norte para desovar, e é ela que o arrasto de praia espera. Já foi chamada de Mugil platanus, mas estudos genéticos mostraram que é a mesma espécie.

Pampo

Trachinotus, gênero; T. marginatus no sul

Pampo é nome de peixes do gênero Trachinotus. No sul do Brasil e até o norte da Argentina vive o Trachinotus marginatus, de até 45 centímetros. Nas praias do Rio Grande do Sul, ele foi o peixe mais comum numa pesca de rede feita na arrebentação.

Corvina

Micropogonias furnieri

Vive perto do fundo, de areia e lama, em água costeira e em estuário, onde ficam os berçários. Os filhotes comem crustáceos e moluscos do fundo, e o adulto também, e de vez em quando pega um peixe. Forma cardumes e faz migrações com as estações.

Os raros

Anchova

Pomatomus saltatrix

Também chamada de enchova. Caça em grupos soltos e ataca cardumes de tainha e de outros peixes, matando muito mais do que precisa para comer. Gosta de praia de arrebentação e de costão, em água limpa e agitada, e no inverno migra para águas mais quentes. É peixe esportivo querido.

Robalo-flecha

Centropomus undecimalis

É um dos robalos do Brasil, e o robalo-peva é outra espécie, o Centropomus parallelus. Os dois vivem em água costeira e em estuário, perto de manguezal, e chegam até Santa Catarina. O robalo-flecha come peixe e camarão e, de maio a setembro, os adultos se reúnem na foz de rios para desovar.

Olho-de-boi

Seriola dumerili

Peixe de recife, de até 1,9 metro. Os adultos ficam em recifes fundos voltados para o mar e comem sobretudo peixe, além de invertebrados. Os pequenos vivem perto de plantas e detritos flutuantes no mar aberto, e a desova é no verão, perto da costa. Há relatos de intoxicação por ciguatera ao comê-lo.

Os grandes

Garoupa

Epinephelus marginatus

A garoupa-de-dorso-escuro nasce fêmea e pode virar macho entre os 12 e os 17 anos. Os adultos vivem sozinhos, no fundo rochoso, e defendem o território. Comem caranguejo e polvo, e os maiores também comem peixe. Podem passar dos 50 anos.

Marlim-branco

Kajikia albida

Peixe de mar aberto, de água azul funda, que come peixe e lula e atravessa o Atlântico em longas viagens. Chega a três metros. As costas são azul-escuras, as laterais prateadas com manchas marrons. É peixe de pesca esportiva.

Marlim-azul

Makaira nigricans

O maior do mapa: pode chegar a cinco metros de comprimento e passar de seiscentos quilos. Vive em mar aberto, em geral sozinho, caça peixe, polvo e lula de dia e viaja longas distâncias. A IUCN o classifica como vulnerável à extinção, desde a avaliação de 2021.

Pampo sobre uma pedra
Pampo (Trachinotus marginatus), fotografado em Rio Grande (RS). Foto: vinicius_s_domingues, CC BY 4.0, Wikimedia Commons.
Garoupa sobre o fundo rochoso
Garoupa (Epinephelus marginatus), na Ilha do Arvoredo, em Santa Catarina. Foto: Marcelo Bandeira, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.
Cardume de paratis na água rasa da praia
Paratis (Mugil curema) na água rasa, no Parque Estadual da Serra do Mar, em São Paulo. Foto: Gilmar R. Ferreira, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.

As baleias-francas

De julho a novembro, a costa catarinense vira ponto de encontro das baleias-francas-austrais (Eubalaena australis). Elas vêm para acasalar, parir e amamentar em enseadas e baías pequenas e protegidas, onde não há predador natural. Boa parte dos grupos que se veem perto da praia são fêmeas com filhote.

Houve um tempo em que a história era outra: a baleia-franca era caçada nas armações, e a caça acabou de vez só em 1973. Hoje o litoral que antes as perseguia cuida delas. Em 2000 foi criada a APA da Baleia Franca, que protege mais de 150 mil hectares de costa, do sul da Ilha de Santa Catarina até o Balneário Rincão. Na lista de bichos que ela protege estão a própria baleia-franca, a toninha e as tartarugas-cabeçuda e verde.

Baleia-franca na costa brasileira
Baleia-franca na Praia do Arroio Corrente, em Jaguaruna (SC). Foto: Geraldo D'Alascio, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.
Baleia-franca perto do Morro das Pedras, em Florianópolis
Baleia-franca no Morro das Pedras, em Florianópolis. Foto: Adtormena, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.

O Projeto Baleia Franca

Quem cuida das baleias na pesquisa e na escola é o Instituto Australis, que toca o ProFRANCA, o Projeto Franca Austral (o Projeto Baleia Franca): pesquisa, monitoramento e educação ambiental sobre a baleia-franca-austral e os ecossistemas marinhos do sul do Brasil. O projeto mantém o Centro Nacional de Conservação da Baleia Franca, em Itapirubá Norte, em Imbituba, que recebe visitantes, e tem a campanha Adote uma Baleia, além de um programa infantil, o ABC do Franquinho. Setembro é o Mês da Baleia Franca, quando a temporada chega ao auge. Foi também uma parceria do projeto com a prefeitura que, em 2003, transformou a antiga armação de Imbituba no Museu da Baleia.

Quer conhecer o trabalho deles? O site é baleiafranca.org.br.

Pra cuidar

O arrasto de praia da tainha guarda a tradição, e hoje também tem limite: desde 2025, essa modalidade tem cota de captura, e o presidente da Fepesc conta que o arrasto depende de vento sul e mar calmo. Um relatório de 2023 apontou que o estoque da tainha estava abaixo do nível sustentável.

O marlim-azul é considerado vulnerável à extinção. É peixe de mar aberto, que viaja longas distâncias, e por isso a pesca dele precisa de cuidado.

E, na temporada das baleias, o que cabe a quem vai à praia é olhar de longe: elas estão ali para cuidar dos filhotes.

Fontes

O lugar e a gente

Os portos

A tainha e o arrasto de praia

As baleias

Os bichos do cenário e os peixes

Fotos

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