Lugares · Goiás, Mato Grosso, Tocantins e Pará

Rio Araguaia

O primeiro rio do jogo existe, e é ainda maior do que cabe no rodapé da tela. Aqui está o Araguaia de verdade: de onde ele vem, quem vive na beira dele e o que nada lá embaixo.

O lugar

O Araguaia nasce em Mineiros, em Goiás, e corre para o norte por mais de dois mil quilômetros, banhando Goiás, Mato Grosso, Tocantins e Pará, até se juntar ao Tocantins. Ele passa bem na fronteira entre o Cerrado e a Amazônia, e por isso tem bicho e planta dos dois. E tem uma raridade: é o último grande rio do Cerrado sem barragem no leito principal.

O rio vive de subir e descer. Na cheia, ele alaga as planícies em volta. Na seca, volta para o canal e deixa à mostra praias de areia branca, feitas do sedimento que a água traz do Planalto Central. No meio do caminho fica a Ilha do Bananal, a maior ilha fluvial do mundo, cercada pelo Araguaia e pelo Javaés. E na água vive um boto que pesquisadores descreveram em 2014 como espécie própria, o boto-do-araguaia. Nem todo cientista concorda que ele seja uma espécie à parte, e a discussão continua.

Os Iny Karajá vivem na beira do Araguaia há gerações, na Ilha do Bananal e em aldeias como a Buridina, em Aruanã. As mulheres karajá fazem as bonecas de cerâmica ritxòkò, reconhecidas como Patrimônio Cultural do Brasil pelo IPHAN em 2012. A própria cidade de Aruanã tirou o nome do rio: em 1939 ela trocou o nome Leopoldina pelo de um peixe do Araguaia, que também é o de uma dança karajá. E todo julho, na seca, o rio vira a praia de Goiás. Famílias levantam acampamentos na areia, e as cidades da beira recebem perto de um milhão de turistas nas férias do meio do ano.

Praia de areia clara e o Rio Araguaia ao nascer do sol
A Praia da Gaivota, no Araguaia, em Araguacema (TO), ao nascer do sol. Foto: R. Uchôa, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.
O Rio Javaés e a Ilha do Bananal
O Rio Javaés e a Ilha do Bananal, vistos da aldeia Txuiri, em Formoso do Araguaia (TO). Foto: Arthur to, domínio público, Wikimedia Commons.
O Rio Araguaia no jogo, de noite, com chuva fina e araras cruzando o céu
O Araguaia no jogo, numa noite de chuva.

O que você vê no jogo

Quase tudo o que aparece desenhado no cenário existe de verdade na beira do Araguaia.

A paisagem

Mata de galeria

É a floresta que acompanha os córregos do Cerrado, com as copas fechando por cima da água como um túnel verde. Na beira de rio largo, como o próprio Araguaia, a faixa de mata não fecha o túnel e ganha outro nome: mata ciliar.

Varjão

Campo sem floresta que fica encharcado ou com água rasa de dezembro a março e seca forte de junho a setembro. No meio dele surgem montinhos de terra de até vinte metros de largura, os monchões.

Bancos de areia

Aparecem quando o rio baixa. É neles que o tracajá e a tartaruga-da-amazônia enterram os ovos, e é perto deles que o boto encurrala cardumes, num comportamento conhecido como estouro do boto.

Acampamento de praia

Acampar na praia do Araguaia é tradição goiana. Na seca, as famílias levantam ranchos de palha e madeira na areia, muitos cobertos com folha de babaçu. O problema é o que fica para trás: lixo e material de construção deixados na praia depois da temporada.

As plantas

Frutos do buriti na mão de uma pessoa
Frutos do buriti (Mauritia flexuosa), no Parque Estadual do Lajeado (TO). Foto: Leovigildo Santos, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons.
Fruto do pequizeiro aberto na palma da mão
Fruto do pequizeiro (Caryocar brasiliense), em Luziânia (GO). Foto: Arley da Cruz, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.

Buriti

Mauritia flexuosa

Palmeira das terras baixas que alagam, que forma os buritizais na beira de rios e córregos e é abundante ao longo de todo o Araguaia. Há pé macho e pé fêmea. Da folha sai cobertura de casa e fibra para rede, esteira e chapéu, e o fruto alimenta bicho e gente.

Jatobá

Hymenaea

Árvore das matas do Cerrado, de madeira de alta qualidade e fruto que se come.

Embaúba

Cecropia

Árvore da mata ciliar, a faixa de floresta na beira do rio. Serve de alimento para aves, peixes e mamíferos.

Pequizeiro

Caryocar brasiliense

Dá o pequi, de uso largo na cozinha goiana. Cresce no cerradão, uma mata de árvores de até quinze metros que fica entre o campo aberto e a floresta úmida.

Ipê-amarelo

Handroanthus, mais de uma espécie

O ipê-amarelo é símbolo do Cerrado, conhecido pela florada e pela madeira nobre. Ele cresce também na mata ciliar. Floresce de julho a setembro, na seca: um engenheiro florestal explica que, com mais flores no tempo seco, a árvore dá sementes que germinam quando a chuva volta. As flores atraem abelhas e beija-flores.

Ipê-roxo

Handroanthus impetiginosus

Dá flores roxas, que costumam abrir entre maio e julho, antes dos ipês amarelos. A árvore adulta chega a 30 metros e ocorre em todos os biomas brasileiros, menos nos Pampas, de preferência em floresta que perde folhas na seca. Serve de madeira de lei e de planta medicinal. Foi a primeira espécie nativa do Cerrado a ter o genoma sequenciado.

Os bichos

Capivara pastando na grama
Capivara em Uberlândia (MG), no Cerrado. A espécie é a mesma do Araguaia. Foto: Vinicius Augusto De Souza, CC BY 4.0, Wikimedia Commons.
Jacaré-tinga sobre uma raiz, na beira da água
Jacaré-tinga (Caiman crocodilus), no Delta do Parnaíba (PI). Foto: Tarciso Leão, CC BY 2.0, Wikimedia Commons.
Tracajá sobre um tronco
Tracajá (Podocnemis unifilis), na Reserva Biológica do Tapirapé, em Marabá (PA). Foto: Raquel Ribeiro da Silva, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.
Araras-azuis em voo
Araras-azuis-grandes (Anodorhynchus hyacinthinus) em voo, no Jalapão (TO). Foto: Marcel Favery, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.

Capivara

Hydrochoerus hydrochaeris

O maior roedor do mundo, e vive perto da água. Aparece entre os mamíferos registrados pelos pesquisadores nas expedições recentes pela bacia do Araguaia.

Jacaré

Caiman crocodilus e Melanosuchus niger

O jacaretinga é numeroso nos lagos rasos do médio Araguaia. O jacaré-açu, cujos machos chegam a seis metros, quase sumiu com a caça por couro nos anos 1960 e hoje volta a crescer no rio. O olho aceso de noite é de verdade: pesquisadores contam jacarés pelo brilho dos olhos na luz da lanterna.

Onça-pintada

Panthera onca

Vulnerável à extinção, ainda aparece nas armadilhas fotográficas dos pesquisadores no Araguaia. Um estudo do Instituto Onça-Pintada apontou o rio, com o Tocantins, como a melhor ligação entre as regiões do Brasil que ainda têm populações viáveis de onça.

Tracajá

Podocnemis unifilis

Tartaruga de rio que, de julho a outubro, sobe nos bancos de areia para desovar. Cava um ninho raso e põe de dez a vinte e cinco ovos. Em volta da Ilha do Bananal, pesquisadores estudam as praias onde ele e a tartaruga-da-amazônia desovam.

Quero-quero

Vanellus chilensis

Tem um esporão de osso na dobra da asa e faz o ninho num buraco raso raspado no chão. Para afastar quem chega perto, finge estar ferido, e o macho pode partir para bicar.

Araras

No jogo passam a canindé, azul e amarela, a vermelha e a arara-azul, toda azul. A canindé anda em casal ou em trio e faz ninho em buraco de palmeira morta. A arara-vermelha-grande gosta do fruto do buriti. A arara-azul é uma das aves ameaçadas que ainda se observam na região.

Os peixes do mapa

Os doze peixes do Araguaia no jogo, do barranco ao fundo do poço. Quando o nome popular vale para mais de uma espécie, o cartão avisa.

Mandi

Pimelodus, chamado de P. blochii

Bagre pequeno que vive e come no fundo: larva de inseto, alga, molusco, peixinho e pedaço de planta. Na bacia Araguaia-Tocantins, o nome Pimelodus blochii acaba aplicado a qualquer mandi do gênero, e esses peixes nunca foram estudados a fundo para saber quantas espécies são. É comida importante na mesa ribeirinha.

Piau-flamengo

Leporinus, sem espécie certa

Piau é nome de vários peixes do gênero Leporinus, e o apelido flamengo aparece em mais de um deles: o flamenguinho, de oito faixas no corpo, e o aracu-flamengo, que come planta, fruto e folha.

Curimba

Prochilodus

Curimba, curimatã e curimbatá são nomes dos peixes do gênero Prochilodus, e na bacia do Tocantins vive o Prochilodus nigricans. Ele come detrito, a matéria orgânica do fundo. Viaja em grandes cardumes duas vezes por ano e desova quando a cheia começa.

Aruanã

Osteoglossum bicirrhosum

Peixe comprido de boca virada para cima, que salta fora da água para pegar besouros e outros insetos. Quem cuida da cria é o macho: carrega ovos e filhotes na boca por cerca de seis semanas. É o peixe que deu nome à cidade de Aruanã.

Peixe-cachorra

Hydrolycus e parentes

Tem um par de presas tão grandes na mandíbula que a maxila tem dois buracos para guardá-las com a boca fechada. Fica de tocaia atrás de galhos e pedras e ataca peixes de até metade do seu tamanho. O nome vale para mais de uma espécie, e no Araguaia a cachorra-facão está entre os peixes mais pescados.

Piranha-preta

Serrasalmus rhombeus

A adulta tem olho vermelho e caça em canal fundo e corredeira, comendo peixe pequeno e arrancando nadadeira e carne de peixe maior. Em 2012, no rio Xingu, pesquisadores mediram nela a mordida mais forte entre os peixes carnívoros, para o tamanho: trinta vezes o próprio peso. Há quem ache que esse nome científico junta mais de uma espécie.

Tucunaré-azul

Cichla piquiti

É do Araguaia e do Tocantins de origem, e só foi descrito como espécie em 2006. Come qualquer peixe que caiba na boca, e pai e mãe vigiam os filhotes por meses. Tucunarés levados para outras bacias, como a do Paraná, viraram invasores, e o azul se estabeleceu até no Pantanal.

Pirarara

Phractocephalus hemioliopterus

Bagre grande de cauda e nadadeiras avermelhadas. Na cheia, entra na mata alagada e come muito fruto, e também caranguejo e peixe. Com a piraíba, é o peixe que os pescadores esportivos mais procuram no Araguaia.

Pintado

Pseudoplatystoma, várias espécies

Pintado, surubim, cachara e caparari são nomes dos bagres de couro manchado do gênero Pseudoplatystoma. Vivem na bacia Araguaia-Tocantins, comem peixe e sobem o rio para desovar entre a seca e o começo das chuvas. As manchas ajudam na camuflagem.

Jaú

Zungaro zungaro

Bagre gigante que caça à noite, quase só peixe. Mora nos poços fundos e espera perto das cachoeiras os cardumes que sobem o rio. Por muito tempo foi tabu na cozinha amazônica.

Pirarucu

Arapaima

Respira ar: a bexiga natatória funciona como pulmão, e ele sobe à tona mais ou menos a cada vinte minutos. Faz ninho no fundo de areia e vigia ovos e filhotes. O nome vem do tupi, pira, peixe, e urucum, vermelho. A ciência hoje reconhece quatro ou cinco espécies de Arapaima, e o estudo da pesca no Araguaia chama o daqui só de Arapaima sp.

Piraíba Centenária lenda do jogo

inspirada na piraíba, Brachyplatystoma filamentosum

Uma piraíba de cem anos é invenção do jogo. A de verdade é chamada de Rainha do Araguaia, um dos maiores bagres da América do Sul, e enche os olhos de pescador há muito tempo. No século XIX, Couto de Magalhães, o pioneiro dos barcos a vapor no rio, anotou ter pescado uma de cabeça com dois palmos e meio de largura. Em 2021, uma piraíba marcada pelo Projeto Peixara nadou mais de oitocentos quilômetros pelo Araguaia. Os números do rio preocupam: a piraíba média pescada ali encolheu quase trinta centímetros em pouco mais de dez anos. A jovem tem nome próprio: filhote.

Tucunaré-azul
Tucunaré-azul (Cichla piquiti). Foto: Douglas, CC BY 4.0, Wikimedia Commons.
Pirarucu na água, entre plantas aquáticas
Pirarucu (Arapaima gigas), no Rio Jamari, em Candeias do Jamari (RO). Foto: Fernando Jose Cantele, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.
Pescador segurando uma piraíba na beira do rio
Piraíba (Brachyplatystoma filamentosum), num rio do sul do Amazonas. Foto: Waltman30, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.

O corredor da onça-pintada

A onça-pintada é o maior felino das Américas e o maior predador terrestre do Brasil. Por ficar no topo da cadeia alimentar, a presença dela diz que o ambiente em volta está saudável, e ela ajuda a controlar as populações das presas.

Só que onça não vive em fazenda cercada: precisa de áreas grandes e de caminho entre elas. Segundo a diretora do Instituto Onça-Pintada, Anah Jácomo, oitenta por cento das onças do Brasil vivem fora de reservas do governo. Por isso a conservação depende muito dos donos das terras onde elas passam.

É aí que entra o Araguaia. O corredor da onça é um projeto de conservação ao longo do rio, com cerca de três mil quilômetros e treze milhões de hectares, da divisa de Goiás com Mato Grosso, passando pelo Tocantins, até o Pará. Ele liga a Amazônia e o Cerrado. A ideia é que grupos de onças de regiões diferentes possam se encontrar, o que deixa a espécie mais forte. Como já contamos, um estudo do instituto apontou o Araguaia, com o Tocantins, como a melhor ligação entre as regiões do país com populações viáveis de onça.

Onça-pintada entre galhos, olhando para a câmera
Onça-pintada na Reserva Biológica do Tapirapé, em Marabá (PA). Foto: Raquel Ribeiro da Silva, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.
Onça-pintada fêmea na beira de um rio
Onça-pintada fêmea na beira do Rio Piquiri, no Pantanal. Foto: Charles J. Sharp, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons.

O Instituto Onça-Pintada

Quem toca o corredor é o Instituto Onça-Pintada (IOP), criado em 2002 pelos biólogos Anah Jácomo e Leandro Silveira. É uma das referências no estudo e na conservação da onça: há mais de vinte anos o instituto acompanha os animais em campo, com coleiras de GPS e armadilhas fotográficas, e trabalha junto com os produtores rurais, porque é nas fazendas que boa parte das onças vive.

Proteger a onça é proteger tudo o que vive em volta dela: o rio, a mata da beira e os bichos que ela caça. Onde ainda tem onça, o lugar ainda está inteiro.

Quer conhecer o trabalho deles? O site do instituto é institutooncapintada.org.br.

Pra cuidar

Na bacia Araguaia-Tocantins, a piraíba não pode ser pescada para consumo: é peixe de soltar, e soltar bem faz diferença, porque o peixe manuseado com cuidado tem mais chance de sobreviver.

O tambaqui, que aparece cada vez mais nas pescarias do Araguaia, não é daqui. Escapou de criações e já se reproduz no rio. Peixe de tanque não vai para o rio.

E o boto-do-araguaia é considerado vulnerável à extinção. A praia cheia de barco na seca é também a casa dele, e o lixo que fica na areia vai parar na água.

Fontes

O rio e a gente

O corredor da onça

O cenário

Os peixes

Fotos

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